A literatura científica dos últimos 20 anos demonstra de forma consistente que o escore de cálcio coronário e a angiotomografia de coronárias têm papéis complementares, mas distintos, e que confundir suas indicações representa um erro conceitual e clínico importante.
Limitações do escore de cálcio para avaliação completa da aterosclerose:
A evidência é clara: até 17% dos pacientes com escore de cálcio zero apresentam doença coronária obstrutiva na angioTC, e essa proporção é ainda maior em pacientes mais jovens (até 58% em menores de 40 anos com doença obstrutiva têm cálcio zero).[1][2] Em grandes coortes internacionais, a acurácia diagnóstica da angioTC (81,1%) foi significativamente superior ao escore de cálcio (68,8%) para detecção de doença obstrutiva.[1] Isso ocorre porque a aterosclerose frequentemente se manifesta como placa não calcificada ou predominantemente fibrótica, especialmente em fases iniciais e em pacientes mais jovens.

Superioridade da angioTC para caracterização da doença:
A angioTC não apenas detecta cálcio, mas visualiza todo o espectro da aterosclerose: placas calcificadas, não calcificadas, mistas, sua extensão, distribuição e repercussão luminal.[3] Estudos demonstram que a angioTC mantém alta acurácia diagnóstica mesmo em pacientes com calcificação severa (sensibilidade >95% mesmo com escores >1000), contrariando a antiga noção de que cálcio extenso limitaria o método.[4]
Valor prognóstico da placa não calcificada:
O estudo SCOT-HEART demonstrou que a carga de placa de baixa atenuação (low-attenuation plaque) é o preditor mais robusto de infarto do miocárdio, superando escore de cálcio, gravidade de estenose e escores de risco tradicionais.[5] Pacientes com carga de placa de baixa atenuação >4% apresentaram risco 5 vezes maior de infarto (HR 4,65).[5] Em contexto de doença não obstrutiva, essa carga elevada associou-se a risco 7 vezes maior de infarto.[6] Essas placas vulneráveis, ricas em núcleo necrótico, são frequentemente não calcificadas e invisíveis ao escore de cálcio.
Impacto clínico da angioTC: evidência de desfechos:
O seguimento de 10 anos do SCOT-HEART, publicado recentemente, mostrou que a estratégia guiada por angioTC resultou em redução sustentada de morte coronária ou infarto não fatal (HR 0,79; p=0,044), com redução de 28% em infartos não fatais (HR 0,72; p=0,017).[7] Esse benefício foi atribuído ao reconhecimento precoce da aterosclerose (incluindo doença não obstrutiva) e maior uso de terapias preventivas ao longo do tempo, sem excesso de revascularizações.[7][8]
Figure 2 Cumulative Incidence of Death from Coronary Heart Disease or Nonfatal Myocardial Infarction. undefined
Diretrizes contemporâneas:
As diretrizes AHA/ACC 2021 para dor torácica posicionam a angioTC como método diagnóstico de primeira linha em pacientes sintomáticos com probabilidade intermediária-alta de doença coronária, enquanto o escore de cálcio é reservado para estratificação de risco em pacientes assintomáticos ou como ferramenta de reclassificação em prevenção primária.[10]

Figure 12 Clinical Decision Pathway for Patients With Stable Chest Pain and No Known CAD undefined
Mensagem prática:
A evidência acumulada em duas décadas confirma sua análise: o escore de cálcio é excelente marcador de carga aterosclerótica calcificada e ferramenta de refinamento de risco em prevenção, mas não substitui a angioTC quando a questão clínica envolve presença, tipo, extensão e repercussão luminal da aterosclerose. A angioTC é o método que realmente mostra a doença coronária em sua totalidade, incluindo as placas não calcificadas de alto risco que frequentemente precedem eventos agudos. Confundir essas indicações pode resultar em subestimação de risco e perda de oportunidades terapêuticas, especialmente em pacientes mais jovens e naqueles com doença predominantemente não calcificada.

Referências
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Association of Age With the Diagnostic Value of Coronary Artery Calcium Score for Ruling Out Coronary Stenosis in Symptomatic Patients. Mortensen MB, Gaur S, Frimmer A, et al. JAMA Cardiology. 2022;7(1):36-44. doi:10.1001/jamacardio.2021.4406.
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